Categoria: noticia
| Governança em revisão |
Por Graziella Valenti, de São Paulo 12/11/2008 |
Indique | Imprimir | Digg | del.icio.us Tamanho da Fonte: a- A+ |
| O ano nem precisou terminar. Antes mesmo do fim de 2008, a governança, em todos os quadrantes, está sob revisão. Diretrizes, recomendações, guias, padrões, tudo em debate. |
| Não por acaso este é o ano e, especialmente, o semestre em que entraram em discussão, para serem atualizados, o Novo Mercado, o Plano Diretor do Mercado de Capitais e o Código de Melhores Práticas do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. E para não falar só em auto-regulação, pode-se acrescentar nessa lista a revisão da instrução 202 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), pilar principal que dita o mínimo de transparência que as companhias abertas precisam oferecer, com balanços e relatórios anuais. |
| Assuntos não faltam para o debate. Não foi sem perplexidade que todos - de investidores a reguladores - assistiram a empresas tradicionais como Sadia e Aracruz colocar em risco a saúde financeira dos negócios com operações superalavancadas no mercado de câmbio. Ambas têm as estruturas internas recomendadas pelas melhores práticas - ao menos, instaladas - e ainda atendem às exigências da legislação americana Sarbanes-Oxley. Antes disso, houve o choque do mercado com as aquisições via incorporações, como a de Tenda pela Gafisa, sem prêmio ou até com deságios, e ainda as suspeitas de fraudes com a prisão dos três controladores da novata Agrenco. |
| De alguma forma, em todas essas mesas de discussão se pensa agora em como tentar prevenir que a governança não seja algo apenas no papel, que seja aplicada de fato. Nos últimos anos, o país experimentou uma forte expansão do mercado de capitais, especialmente calçada na disseminação mundo afora e país adentro de seus avanços em boas práticas de governança. Mas, até agora, o saldo de 2008 coloca interrogações nessa crença e os acontecimentos estão influenciando a revisão dos pilares da governança brasileira. |
| Nas reuniões para revisão do Plano Diretor, lançado em 2002, as discussões sobre governança foram ganhando cada vez mais espaço, conforme o noticiário. A previsão inicial era que o plano revisado fosse aprovado pelas 18 entidades que o compõem o grupo de discussão ainda em setembro. Mas foi justamente no mês em que o cenário internacional se deteriorou após a quebra do banco americano Lehman Brothers e que surgiram os escândalos financeiros brasileiros com os derivativos. |
| Quando os debates sobre a atualização começaram, em junho, parecia que havia pouco a ser discutido e temas como reforma da previdência e tributária - presentes no plano - tinham mais atenção. Então, veio a enxurrada de acontecimentos. Carlos Rocca, coordenador do Comitê Técnico do Plano Diretor e dos trabalhos de revisão, explica que as novidades modificaram o rumo dos debates. Os pontos centrais não foram alterados, mas as ações específicas foram atualizadas pelos fatos. "Tanto os problemas lá como aqui estão fortemente ligados à falta de governança. Por isso, esse assunto foi reforçado no plano." |
| Além de buscar esforços para acelerar a migração das companhias tradicionais ao Novo Mercado, o plano atualizado, que está prestes a sair do forno, também falará em adoção de modelos de auto-avaliação para conselhos de administração, apoio de técnicas de gestão de risco e seu monitoramento sistemático. |
| Alexandre Di Miceli, coordenador do Centro de Estudos em Governança (CEG), da Fipecafi, acredita que atualizar as diretrizes sobre governança é importante. "É curioso conversar com o investidor na bolsa que é iniciante no mercado. O cenário recente deixou uma sensação de que é aplicação de curto prazo e só para iniciados. Tudo isso contamina o ambiente brasileiro." |
| Edison Garcia, superintendente da Associação dos Investidores no Mercado de Capitais (Amec), defende que a promoção das boas práticas é mais relevante no atual cenário. Para ele, o Plano Diretor deve pensar a agenda do que será a nova governança daqui para frente. Além disso, enfatiza que é preciso deixar claro que auto-regulação é complementar e não substitutiva da regulação. |
| Gilberto Mifano, presidente do conselho de administração da BM&FBovespa, acredita que as revisões são importantes porque governança é um processo evolutivo. "Não são dez mandamentos escritos numa pedra que servem para toda eternidade." |
| Segundo ele, quando a Bovespa criou o segmento especial, em 2000, e mesmo nas revisões anteriores, o cenário empresarial doméstico era predominantemente formado por empresas com controlador definido. Mas é crescente a presença de companhias com capital difuso ou pulverizado. Os dilemas mudaram. |
| Em 2006, na última revisão do regulamento do Novo Mercado, foi incluída a obrigatoriedade de que 20% do conselho seja composto por membros independentes. "Na época, pouco se falava disso. Agora, questionamos se esse percentual é adequado", diz Mifano. |
| Outro ponto em debate na Câmara Consultiva do segmento, composta por 20 membros liderados pelo ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) Luiz Leonardo Cantidiano, são as "aquisições originárias". Trata-se das operações societárias que tanto debate geraram neste ano: quando há uma aquisição de controle sem que haja venda. Por não disparar a obrigatoriedade de oferta aos minoritários de ordinárias prevista tanto na Lei das Sociedades por Ações desde 2001 como na regra do Novo Mercado, as transações provocaram decepção. |
| Há muitos defensores de que se adote o modelo europeu, em que há obrigação de oferta a todos a partir do momento em que um investidor alcance fatia de 30% no capital de uma empresa. |
| Já o novo Código de Melhores Práticas do IBGC, previsto para ser lançado no primeiro semestre de 2009, deve tratar de questões como responsabilidade de administradores, gestão de risco e transparência dessas informações. Eliane Lustosa, coordenadora do comitê de revisão, destaca que o instituto sempre defendeu a separação clara entre conselho e diretoria. |
| Cada um dos organismos encontrou um nicho de orientação. Em comum, o dilema é a inserção efetiva da cultura da boa governança no negócio. Mifano defende que investidores e e analistas acompanhem e cobrem o assunto das empresas. "Como todas as regras de comportamento, governança é algo fácil de dizer que tem, mas não tão fácil cumprir." |
| Para Di Miceli, ajudaria se a auto-regulação não fosse encarada como algo completamente voluntário. O regulador poderia inserir a recomendação do "pratique ou explique", adotada em alguns países da Europa. Ou seja, a empresa se justifica para o mercado quando não estiver dentro dos melhores parâmetros de governança. |
| Alfred Plöger, vice-presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), defende que não se criem novas regras. Para ele, é melhor quando é voluntário. "Regra demais engessa." |
| Mas, querendo ou não, as exigências de informações aumentarão com a nova instrução CVM, cuja audiência pública deve começar ainda neste ano. "O que é essencial precisar ser feito pela CVM ", disse Maria Helena Santana, presidente da CVM, ao falar sobre o assunto, recentemente em São Paulo. | |
|